PANCS, você já ouviu falar?

Com certeza você já deve ter ouvido falar no termo PANC. Ou se ainda não ouviu, certamente precisa saber sobre este assunto que está em alta no mundo da gastronomia.

PANC é a sigla usada para plantas alimentícias não convencionais que estão espalhadas por toda a cidade e na nossa natureza. Sabe aquele matinho que vemos nas ruas, beira de calçadas, muitos no interior e que muitas vezes não damos o menor valor ou achamos se tratar apenas de mais uma planta de rua? Saiba que muitos desses matinhos são ingredientes incríveis que podem ser utilizados na nossa culinária e trazer a biodiversidade aos pratos de nós brasileiros.

Essas plantas não convencionais eram consumidas em abundancia por nossos bisavós e até avós mas devido a crescente falta de interesse do homem em cultivar o seu próprio alimento juntamente com a pouca diversidade na agricultura o numero de PANCS consumidas pelo homem caiu drásticamente nos últimos cem anos, de 10 mil espécies para 170, dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

As PANCS podem ser plantas nativas mas de uso não habitual assim como espécies exóticas e silvestres, existentes por todo país tanto nas regiões urbanas como na mata e seu uso pode ser direto, com o consumo das folhas, raízes e frutos in natura ou após cocção como indireto, tendo como resultado de seu processo amidos, féculas e óleos. São plantas altamente resistentes pois nascem de acordo com a região em que foram germinadas se adaptando a todos os tipos de ambientes, clima e solo.

Apesar de ser tão comuns, poucos ainda conhecem suas funções nutricionais e usos na alimentação e a falta de conhecimento e propagação do assunto, que ainda é pouca, faz com que tenhamos dificuldades de encontrá-las para compra em supermercados e feiras livres. Muitas vezes essa falta de conhecimento faz com que estejamos na frente de verdadeiras iguarias mas a julgamos como ervas daninha ou pragas, ignorando a sua existência.

 O termo PANC foi criado pelos pesquisadores Valdely Kinupp (botânico) e Harri Lorenzi (agrônomo) também autores do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil – Ed. Planatarum, onde catalogaram 352 espécies de plantas.

Mas é importante destacar que o termo tem restrições de uso”, diz Neide Rigo, grande pesquisadora sobre o assunto. “Alguns exemplares de PANCS encontradas em São Paulo podem não ser considerada uma PANC no nordeste onde é consumida regularmente, por exemplo”.

Alem da dificuldade de encontrar as PANCS para compra alguns outros fatores acabam dificultando o consumo desse tipo de alimento. Por isso, Neide Rigo esclarece numa rápida entrevista as principais duvidas a respeito do tema:

  • Neide, o termo PANC ainda é um tanto quanto obsoleto para muitas pessoas. Já conversei com muita gente que se interessa muito pelo assunto, que tenta identificar as PANCS pela cidade mas acaba por ter medo de se confundir e colher algo tóxico por exemplo. Como podemos identificar as PANCS no ambiente urbano e quais os melhores pontos em SP para colheita (podemos colher livremente nas ruas?)? Existe algum método de saber se uma planta é tóxica ou não?

 O TERMO PANC NÃO É ESTÁTICO. PODE VARIAR CONFORME O TEMPO, O LOCAL, O ESPAÇO E PODE  DETERMINAR UM USO NÃO CONVENCIONAL DE UMA ESPÉCIE  COMUM (EX. BANANA VERDE). PARA IDENTIFICAR O QUE É COMESTÍVEL NO ESPAÇO URBANO  NÃO EXISTE OUTRA FORMA A NÃO SER A IDENTIFICAÇÃO PRÉVIA COM QUEM CONHECE OU EM GUIAS, COMO O DO KINUPP / LORENZI, SOBRE PANC. 

NÃO HÁ NADA NUMA PLANTA QUE A IDENTIFIQUE COMO TÓXICA E NEM MÉTODO PARA IDENTIFICAR - ENTÃO TEM QUE CONHECER. O MELHOR PONTO PARA SE COLHER ERVAS ESPONTÂNEAS PARA CONSUMO É NO QUINTAL OU VASOS DA SUA CASA. NA RUA SEMPRE EXISTE RISCO. 

MAS NADA IMPEDE QUE VOCÊ COLHA UM  DENTE-DE-LEÃO NA RUA. TODA ERVA COLHIDA NA RUA DEVE SER COZIDA. 

  • Quais as PANCS que podemos achar com maior facilidade aqui em SP?

 AS ERVAS ESPONTÂNEAS, COMO POR EXEMPLO: CARURU, TANSAGEM, MENTRUZ, DENTE-DE-LEÃO, BUVA, SERRALHA, MAJOR-GOMES ETC

  • Mesmo sabendo quais são as PANCS e sabendo que são comestíveis, os         exemplares colhidos pela cidade ainda causam um certo medo em estar contaminados pela poluição ou fatores externos de rua comuns como secreções animais por exemplo. Tendo em vista esses fatores, quais os melhores meios de higienização de uma PANC urbana e como saber o melhor método de prepará-las, se in natura ou se é necessário algum tipo de cocção?

 AS ERVAS ESPONTÂNEAS DA RUA DEVEM SER EVITADAS ESPECIALMENTE SE QUISER CONSUMI-LAS CRUAS.  SE COLHER NO SEU QUINTAL OU LUGAR QUE CONHECE E QUE ESTEJA LIVRE DE ANIMAIS, BASTA LAVAR COMO AS OUTRAS VERDURAS PARA USAR EM SALADAS  - SE FOR O CASO.  AS DE RUA DEVEM SER COZIDAS. 

  • Ainda é muito difícil encontrar PANCs para compra, tanto em supermercados como em feiras livres. Você recomenda alguns lugares onde podemos encontrar algumas variedade em exemplares de PANCS para compra?

AS PANC  NÃO ESTARÃO NUNCA AGRUPADAS NUM LUGAR SÓ PORQUE PODEM SER ERVAS, FLORES, FRUTOS, LEGUMES, RAÍZES, FARINHAS. ENTÃO, PODEM ESTAR EM LUGARES DIFERENTES. VOCÊ PODE COMPRAR BATATA DOCE ROXA, POR EXEMPLO, NO CEAGESP;  UM CARÁ MOELA NO SACOLÃO, UM UMBU NO PÃO DE AÇÚCAR, UMA BANANA VERDE  NA FEIRA,  UM CRUÁ NO MAMBO, UMA TANSAGEM NUMA LOJA DE ERVAS PARA CHÁS E ASSIM POR DIANTE.  É UM MUNDO PARALELO IGUAL AO CONVENCIONAL

  • Sobre o uso das PANCS em restaurantes. Você acha esse uso bacana para a propagação do tema ou acha que o uso em restaurantes pode vir a “gourmetizar” esse alimento tão simples que possa vir a tirar o foco principal do seu estudo?

 ACHO INTERESSANTE PELO EXEMPLO QUE PODE REPRESENTAR.  MAS, SIM, CORREMOS ESTE RISCO. 

  • Muito tem se falado no pequeno produtor e da importância para cada região de se consumir produtos locais. Creio que as PANCS podem ser uma excelente opção e um incentivo para que as pessoas voltem a plantar e colher seu próprio alimento. Você como grande conhecedora desse mundo, acha isso possível, que as pessoas comecem a cultivar PANCS em casa? Se sim, você teria algumas dicas ou conselhos a dar a quem quer começar esse tipo de cultivo?

PRODUTORES PODEM, POR EXEMPLO, VENDER OS CARURUS QUE NASCEM ENTRE AS FILEIRAS DE ALFACE EM VEZ DE FICAR PENSANDO SÓ NA ALFACE. NÃO SÃO TODAS AS PANC QUE  PODEM SER CULTIVADAS EM CASA, MAS UMA OU OUTRA, ESPECIALMENTE AS ERVAS ESPONTÂNEAS, DÁ PRA TER. É SÓ ENCHER UM VASO COM TERRA DE JARDIM E REGAR. EM POUCO TEMPO VOCÊ VERÁ NASCER ALI CARURU, BELDROEGAS, CAPIÇOBAS ETC . OUTRA COISA QUE PODE FAZER É REPLANTAR. RETIRE DA RUA A PLANTA COM TORRÃO DE TERRA E PASSE PARA O SEU QUINTAL 

E para você que ficou super curioso em saber mais sobre as PANCS e qual sabor elas tem, Neide nos ensinou uma receita super fácil feita com banana verde e ....., receita essa que Neide ainda nem publicou mas que fez gentileza de dividir com nossos leitores.

Espagueti de Banana Verde

6 bananas verdes

Sal, suco de 1 limão thaiti

Azeite de Oliva

2 fatias de pão integral esfarelado

2 dentes de alho picados finamente

1 punhado de PANCS de sua preferência ou a que achar mais fácil (guasca, buva, mentruz rasteiro) se não achar salsinha ou cebolinha

Modo de fazer: Descasque as bananas, corte em tirinhas finas e cozinhe por 1 minuto em água fervente com um pouco de sal e suco de limão (em uns 2 litros de água). Escorra e reserve. Em uma frigideira com um pouco de azeite doure as fatias de pão integral esmigalhado até ficar levemente tostado e crocante e reserve. Na mesma frigideira coloque mais um pouco de azeite e doure o alho.  Junte um punhado da erva escolhida picada e junte a banana escorrida. Misture delicadamente, sirva no prato e espalhe por cima a farofa de pão.

Fontes: Teia Orgânica

Vem conhecer mais sobre o trabalho incrível da Neide Rigo! Blog Come-se – Neide Rigo

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